quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Tuberculose e arte

Tuberculose: história e arte
Profa. Eliana Corrêa dos Santos

Todos os anos são registrados em torno de 8,8 milhões de novos casos de tuberculose em nosso mundo. Embora a incidência global da doença apresente decréscimo ou estabilidade maioria das regiões do mundo, estima-se que ainda ocorram 2,7 milhões de óbitos anualmente, sendo 98% nos países em desenvolvimento. No Brasil, foram notificados 86.881 casos novos em 2004, colocando o país no 16º lugar entre os 22 países responsáveis por 80% do total de casos de tuberculose em todo o mundo. O estado de São Paulo notifica anualmente cerca de 21 mil casos, representando o maior contingente de casos do país.
Em 24 de março de 1982, 100 anos após o descobrimento do Mycobacterium tuberculosis por Robert Koch, foi lançado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela União Internacional Contra TB e Doenças Pulmonares, o Dia Mundial da Tuberculose, que todos os anos mobiliza milhares de pessoas mundialmente no combate a doença.


A conferência de Koch: uma noite inesquecível
Era a noite de 24 de março de 1882. O médico alemão Robert Koch iniciou sua conferência relembrando o público das terríveis estatísticas sobre a tuberculose: esta deveria ser considerada como a mais importante das mais importantes doenças infecciosas pelo número de mortes que provocava. Nesta época, uma em cada sete pessoas morria por causa da tuberculose.
Considerada por muitos como a conferência mais importante de toda a história da medicina, Robert Koch foi inovador e inspirado ao levar para a tribuna praticamente seu laboratório inteiro: microscópios, tubos de ensaio com culturas, lâminas de microscópio, corantes, reagentes, amostras de tecido e tudo o mais necessário ao convencimento da audiência. Ele queria que todos checassem seus achados com seus próprios olhos.
Koch mostrou tecidos dissecados de cobaias infectadas com material tuberculoso extraído de pulmões de macacos, cérebro e pulmões de humanos que morreram vitimados pela doença, massas caseosas de pulmões cronicamente doentes e cavidades abdominais de gado infectado.
Em todos os casos apresentados, a doença desenvolvida pelas cobaias e a cultura da bactéria foi a mesma. Quando Koch terminou a apresentação da sua descoberta - o Micobacterium tuberculosis -, o causador da tuberculose, houve um completo silêncio na platéia. Nenhuma questão, nenhuma congratulação, nenhum aplauso. Todos pareciam atordoados. Lentamente todos se levantaram e dirigiram-se aos microscópios para ver a bactéria com seus próprios olhos.
Rapidamente a notícia se espalhou. Os resultados foram publicados na Alemanha em 10 de abril, no “The Times” inglês no dia 22 de abril e no “The New York Times” no dia 3 de maio. Robert Koch tornara-se então famoso e tornou-se conhecido como o “Pai da Bacteriologia”. No entanto, somente em 1905, e após 55 nomeações ao Prêmio Nobel, foi reconhecido com o prêmio “por suas investigações e descobertas em relação à tuberculose”.
Tuberculose e Arte:
A tuberculose é dotada de elementos altamente simbólicos que sempre impressionaram o imaginário ou o coletivo, determinando condutas na organização social histórica. A hemoptise, a segregação social imposta pela doença, a solidão nos sanatórios ou o próprio sanatório, o frio das montanhas distantes onde geralmente estes sanatórios ficavam, os suores noturnos, a febre baixa ao por do sol, a morte eminente na fase pré medicamentosa, sentimentos supervalorizados, sexualidade, estados de perversão supostamente desencadeados pela toxina tuberculosa e o excesso de sofrimento fazem parte desta simbologia amplamente exposta na arte, e muitos autores, infectados pelo MT, ou não, faziam analogias entre estas características biológicas e características pessoais, quer de personagens, quer deles próprios. A doença era vista como amplificadora da sensibilidade e genialidade da produção intelectual. A febre dos corpos era confundida com o fogo das paixões e pelo confronto direto com a percepção da morte iminente através do refinamento de sensações e emoções muitos doentes eram mais “interessantes” do que outras pessoas. A determinação do caráter transmissível da doença acabou por transformar a condição de “doentes sensíveis” para “degenerados”.
A vida nos sanatórios também foi fonte freqüente de inspiração para véros artistas, como Tomas Mann, autor de A Montanha Mágica que expõe as profundas mudanças interiores após a experiência com a própria doença e o exílio nas montanhas alpinas, e que de mágicas não tinham nada.
A hemoptise, ou o mesmo símbolo, esteve e ainda está presente no cinema americano em My seewt Valentine em que Victor Mature representa o papel de um dentista-pistoleiro-tuberculoso vil e destemido, porém impotente diante do incurável. Ainda em Moulin Rouge cujo subtítulo Amor em vermelho é um prenúncio inevitável da morte da heroína vivida por Nicole Kidman.
No Brasil, a partir da década de 1930, vários poetas e grandes autores discorriam sobre o tema e eram eles mesmos os protagonistas da luta contra a doença. A solidão, a desigualdade social, a rotina sanatorial e a falta de esperança estão presentes na obra de Nelson Rodrigues que esteve internado em Campos do Jordão por várias vezes. Há também aqueles que como Manoel Bandeira, sobreviveram aos estigmas, aos sanatórios e as hemoptises da era pré-medicamentosa, e viveu até os 84 anos.
Apesar dos avanços tecnológicos, diagnósticos e terapêuticos, a simbologia da doença permanece no imaginário da coletividade. Por outro lado, a fome e a desigualdade social, entre outros reais fatores conferem ao doente um caráter de exclusão, dificultando o adequado controle do quadro.
Como a tuberculose seria artisticamente representada nos dias de hoje? A doença ou o doente e suas angústias mudaram? O tempo talvez responda. Por enquanto, compete-nos a arte de cuidar “do doente” e não da “doença”. (texto modificado: Dr. Sydnei Bombarda)
Fonte de pesquisa: www.sppt.org.br; museu Virtual da Tuberculose: Instituto Clemente Ferreira.

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